Alimentação infantil: criando adultos saudáveis

A ciência já comprovou que as primeiras experiências alimentares são determinantes na formação dos hábitos das crianças. Além disso, a alimentação é a base para uma vida mais sadia.

O período entre as 35 semanas de gestação e os três anos de idade é a janela de oportunidade para desenvolver os hábitos alimentares. Ainda na gestação, o bebê experimenta variação de sabores de acordo com a alimentação da mãe.

A importância da alimentação infantil

Muito se fala do aleitamento materno e da introdução alimentar. No entanto, é preciso pensar na sequência desse processo.

A partir do 1º ano, ou até antes disso, muitas crianças são expostas a alimentos industrializados, na grande maioria ricos em açúcares, farinhas refinadas, gorduras de má qualidade, adicionados de aditivos alimentares (substâncias químicas que aumentam o tempo de prateleira, dão mais cor, textura e sabor aos alimentos) e vitaminas e minerais sintéticos que, além de terem baixa absorção, muitas vezes se encontram em desequilíbrio.

Entre os aditivos alimentares estão os realçadores de sabor, substâncias que fazem com que nossos botões gustativos, presentes na nossa língua, percebam de forma muito intensa os sabores. Todos já devem ter percebido que nenhum milho cozido na espiga tem a mesma explosão de sabor que um salgadinho de milho de pacote, não é mesmo?

Esses alimentos industrializados competem de forma desigual com os alimentos naturais, que possuem uma infinidade de nutrientes e de substâncias bioativas capazes de prevenir e até curar nosso corpo de diversas doenças, mas que não possuem o mesmo apelo comercial e sensorial.

E quanto mais cedo a criança fizer contato com alimentos industrializados, mais seu paladar responderá negativamente aos alimentos naturais, pois seus botões não reagiram intensamente, dando a impressão de um alimento “sem graça”.

Mas como criar adultos saudáveis?

Já é natural haver um momento de seletividade na alimentação infantil, quando a criança rejeita um alimento que, até ontem, comia com gosto. Isso é totalmente conhecido e até esperado.

O problema é que se cada alimento rejeitado for retirado da rotina da criança, ela terá seu cardápio cada vez mais restrito, uma vez que essa rejeição é parte do comportamento e do desenvolvimento da maioria das crianças.

E se na preocupação com a rejeição aos alimentos naturais estes forem substituídos por alimentos industrializados, que tem melhor aceitação, a manutenção de uma alimentação saudável ficará totalmente prejudicada, podendo acompanhar essa criança ao longo de toda a vida.

Muitos estudos apontam para os prejuízos à saúde causados pelo consumo excessivo e regular de alimentos industrializados. A longo prazo, estes alimentos podem levar a quadros de depressão, hiperatividade, déficit de atenção, hipertensão arterial, diabetes e problemas cardiovasculares.

Desta forma, é ideal adiar ao máximo a introdução de alimentos industrializados na vida dos pequenos, como biscoitos, sucos de caixinha, salgadinhos de pacote, alimentos com adição de açúcar, cereais matinais, achocolatados, embutidos, refrigerantes, chocolates ao leite, entre outros.

E quando o adiamento se tornar impossível, como quando as crianças já estão maiores e vão pra escola, pra casa de amigos ou de avós que adoram oferecer guloseimas, precisamos deixar que elas experimentem sem culpa, mas que voltem à sua rotina equilibrada e nutritiva do dia-a-dia. Isso significa oferecer diariamente pratos coloridos, sempre com vegetais variados e produtos integrais, não esquecendo das frutas.

O mesmo acontece nos finais de semana, feriados ou férias. Nosso corpo continua precisando de todos os bons nutrientes, então, aquele hábito de liberar tudo só porque é uma ocasião especial precisa ser repensado, pois pode ser vivido com prazer, mas não deve virar rotina.

Para ajudar a superar alguns momentos difíceis no estabelecimento dessa conduta, é interessante aderir ao hábito de fazer as refeições em família, ou com ao menos um cuidador comendo junto com a criança, e estabelecer uma rotina de refeições à mesa e livre de telas.

Caso algum alimento seja rejeitado, uma boa tática é o adulto comê-lo. Nestas situações, peça que seu filho coloque na sua boca ou no seu prato e deixe que ele veja que você comeu e simplesmente não valorize esse fato. O alimento rejeitado pode ser oferecido em outra ocasião e preparado de outra forma.

É importante lembrar que a criança imita tudo o que vê. Logo, se ninguém come um prato colorido, com muito verdinho e alimentos naturais, ela perceberá e também não irá comer.

A alimentação de rotina, colorida, variada e nutritiva, deve ser reconhecida e valorizada. Se a criança merecer alguma recompensa, que seja algo não alimentar, como uma contação de estória, um passeio no parque ou na pracinha, a visita de um amigo, um filme, etc.

A alimentação deve ser algo feito com alegria e que dê prazer à criança. Desta forma, ela poderá superar a fase de descoberta de outros sabores e texturas não tão nutritivos sem perder o prazer de uma boa alimentação.

Regina Sarmento, nutricionista.

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