Afinal, gordura saturada faz mal à saúde?

Na ciência, às vezes uma nova perspectiva pode virar nossa interpretação dos dados de cabeça para baixo e exigir uma mudança de paradigma. Houve, e continua a haver, divergências ferozes na ciência da nutrição sobre o que constitui uma dieta saudável. Uma controvérsia chave é o papel das gorduras saturadas na saúde e na doença.

As gorduras saturadas são conhecidas por aumentar os níveis de colesterol no sangue, e o aumento do colesterol no sangue é frequentemente observado em pessoas que desenvolvem doenças cardiovasculares.

Pensa-se há mais de meio século que as gorduras saturadas na dieta promovem doenças cardíacas ao aumentar o colesterol no sangue.

No entanto, um novo modelo explica por que essa chamada “hipótese da dieta do coração”, que teve uma grande influência nas diretrizes alimentares, pode ter uma explicação alternativa.

Em um novo artigo publicado no American Journal of Clinical Nutrition, três cientistas levantaram uma questão que desafia a hipótese da “dieta do coração”: por que as gorduras saturadas aumentam o colesterol no sangue e por que isso deveria ser perigoso?

Afinal, as gorduras saturadas ocorrem naturalmente em uma grande variedade de alimentos, incluindo o leite materno.

Uma célula é cercada por uma membrana fluida que controla a função celular e as células dependem da capacidade de incorporar uma certa quantidade de moléculas de colesterol, para que suas membranas não fiquem muito rígidas ou muito fluidas.

A base do modelo é que quando as gorduras saturadas substituem as poli-insaturadas na dieta, é necessário menos colesterol nas membranas celulares.

Isso ocorre porque as gorduras poli-insaturadas da dieta entram em nossas membranas celulares e as tornam mais fluidas.

As células ajustam a fluidez de suas membranas incorporando o colesterol recrutado da corrente sanguínea.

De acordo com o modelo apresentado pelos pesquisadores, isso pode explicar por que os níveis do colesterol no sangue diminuem quando comemos mais gorduras poli-insaturadas.

Nossas células são normalmente capazes de ajustar seu teor de colesterol de acordo com as mudanças na dieta de gorduras.

Em diversos estudos, outras razões para o colesterol LDL elevado em pessoas com doenças cardiovasculares são discutidas, como inflamação de baixo grau e resistência à insulina.

Isso indica que o colesterol elevado no sangue causado por distúrbios metabólicos deve ser desacoplado do colesterol elevado no sangue causado por uma grande mudança na ingestão de ácidos graxos saturados na dieta.

Também se questiona o benefício de reduzir o colesterol no sangue adicionando ácidos graxos poli-insaturados à dieta e não abordando a causa raiz.

As pessoas com distúrbios metabólicos geralmente não apresentam as alterações esperadas no colesterol no sangue ao alterar a ingestão de gordura, sugerindo perda da resposta normal.

O raciocínio de alguns estudos indica que o efeito das gorduras da dieta sobre o colesterol no sangue não é uma resposta patogênica, mas sim uma adaptação completamente normal e até saudável às mudanças na dieta.

Mais estudos são necessários para um melhor posicionamento sobre os malefícios da gordura saturada na dieta.

Enquanto isso, sugiro seguirmos as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, preferindo mais alimentos in natura e evitando os alimentos ultra processados (esses vendidos prontos para consumo, como salgadinhos de pacotes, pizzas congeladas, biscoitos recheados, etc.).

Dessa forma, mesmo que haja a ingestão de gorduras saturadas, as mesmas serão originárias de comida de verdade, e não desses alimentos cheios de químicas e gorduras trans.

Nutricionista Iris Lengruber
Nutricionista, pós graduada em vigilância sanitária, mestre em ciências dos alimentos pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, especialista em nutrição oncológica e membro da sociedade brasileira de nutrição em oncologia (SBNO).
Coordenadora da pós graduação em nutrição oncológica da Nutmed
Instagram: @iirislengruber.nutri

 

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